17 de março de 2016

Ijime silencioso


Meio comum entre os jovens japoneses, mas não somente entre jovens mas também entre os mais velhos e  quem deveria dar o exemplo acaba por participar disto que de engraçado nada tem.



Conversei com homens jovens na faixa de 23 a 40 anos sobre o bullying que praticam e confesso que não foi muito fácil iniciar a conversa porque na cabeça deles isto não soa tão mal, apenas como forma de "educar" o kohai ( o mais novo da turma , da escola ou do trabalho). No geral pensam que para se aprender  se não for pela dor será pela dor. Hum Alo?!


Ouvi então frases tipo " Se não insistir em fazer a pessoa se defender ela não se esforçará". O que isto significa no pensamento deles? Significa que assim como foi recebido deverá ser dado a outro que vier. Vejo muito que logo que entra alguém novo primeiro notam a idade, casado/a, cabelos (careca, calvo) aham isso mesmo , os japoneses em grande parte são calvos sim mas acreditem eles não aceitam, ou seja, não se aceitam. Se uma pessoa que passa dos 40 anos e ainda não casou isso soa estranho e claro , motivo de algumas piadas. Vistoria feita comecemos o ijime (bullying) que obviamente na visão da maioria isto não significa judiar, fazer ijime, bulinar e sim uma forma de aprendizado mais dura, mais rígida e menos amigável se assim podemos dizer. Uma pessoa mais retraída e tímida é sempre a bola da vez, será sempre julgada pelo que não falou e terá sempre quem ria do seu silêncio, que eu diria quem cala não é que consente mas tem no seu Mapa natal um Mercúrio elevado.



Quem é o mais esperto? quem faz ou quem não revida? Já vi também que para poder fazer parte do grupo você terá que praticar algo contra alguém para ser aceito. O grupo tem um líder, ele não faz, não suja a mão ( como na astrologia, todos estão a serviço do Sol),  ele é o mais forte mas não em força física porque é sempre o primeiro a se esconder atrás do seu escudo humano, escudo este gerado por comparsas que se sujeitam a receber ordens de graça de uma pessoa que não acrescenta nada ao invés de seus pais que não sabendo o que os filhos fazem julgam estar educando da melhor maneira possível. Uma das cenas que presenciei e me marcou foi quando o líder, um fumante que não comprava o seu próprio olhou para o seu escudo e falou: o fulano ( este fulano não é fumante) estou vendo que só tenho 1 cigarro e vou precisar de mais. Aqui não está inserido a palavra compre , mas se entende e todos entenderam que aquele fulano deveria sair correndo para comprar e com o seu próprio dinheiro. E ele foi!


Podemos ver o sorriso estampado, aquele sorriso largo de orelha a orelha quando são prontamente atendidos e também já presenciei o olhar de ódio e rancor por terem-no desafiado. A humilhação é a primeira a se fazer presente na roda e o humilhado continua ali parado e rindo de si mesmo com todos e aí mais risos. Caso alguém pergunte algo sobre os risos a resposta vem em coro: não sei é o fulano aqui que está rindo! Não se assume o que fez ou quem fez, é sempre culpa do fulano.


Alguns me responderam que esse tipo de atitude é coisa de gente antiga, dos mais velhos que antigamente era assim no Japão e isso fez e faz parte da cultura deles, o de fazer sofrer para aprender. As mulheres foram as mais afetadas por esta filosofia de vida, sim porque isto virou uma filosofia de vida, uma aceitação de como viver melhor, um paradigma, e ainda hoje podemos ver os maridos que acompanham as esposas ao mercado ou ao médico e eles ficam dentro do carro grudados ao celular enquanto elas estão com a ninhada correndo lá dentro do consultório ou mercado e o Boss no seu conforto dentro do carro com ar condicionado e seu smartphone assim como podemos ver os que estão ali do lado, acompanhando, ouvindo junto mas eles ainda são minorias. 


Está enraizada, os mais novos falam que a culpa é dos mais velhos e os mais velhos afirmam mas a mudança requer tempo e mudança de paradigma e só quebramos um quando aceitamos um novo. E por enquanto seguimos o velho paradigma. 

Os vizinhos japoneses

Hoje a minha vizinha veio me presentear com doces como forma de pedido de desculpas caso o choro do seu neném me perturbe. É comum ...