28 de março de 2018

Os últimos dias de vida não precisam ser necessariamente de escuridão



Esta imagem ao lado refere-se a algo incomum mas com um significado de vida, de que os últimos dias de vida não precisam ser necessariamente nublados.

O que eu vi me tocou profundamente e confesso que por alguns segundos parei e olhei melhor aquela paisagem. Não pude por motivos óbvios, afinal  fazer uma foto enquanto o paciente na cama  e com toda aparelhagem que um paciente terminal de câncer carrega consigo somente para expô-lo ou eu ativar o meu ego, afinal isso  não é o que me move ou me faz feliz. Ganharia muitos likes se eu mostrasse o que eu estava vendo mas sabe... meu ego é pequeno e quero deixá-lo assim.

Afinal o que eu vi, o que quer dizer essa imagem?

Na imagem podemos ver algumas sombrinhas de sol e uma mesa com bebidas, sucos, chás e água embaixo da arvore da Flor da cerejeira, ou seja, o nosso famoso Sakura.

É comum nesta época fazer piquenique embaixo dessas árvores com a família, é um momento de descontração e interação para os japoneses.


Era quase meio dia e eu havia terminado a fisioterapia. Chego no estacionamento e vejo várias enfermeiras embaixo de uma árvore, vou chegando mais perto e entendo o que esta acontecendo.

O que eu vi foi um paciente de câncer terminal chegando de cama com todos os equipamentos que o acompanham neste tratamento, junto com o médico e enfermeira para fazer talvez o seu último piquenique sob a Flor de Cerejeira; o Sakura. Outros pacientes chegaram na cadeira de roda e cada um com uma enfermeira.



Ver a flor de Sakura para os japoneses é um dos melhores momentos de descontração e felicidade, desde pequenos eles comem debaixo da árvore nesta época junto a família.

As enfermeiras tirando fotos com os pacientes ou para eles, isto faz toda a diferença na recuperação, alivia o stress de um ambiente hospital onde só se pensa em doença e dor. Eu enquanto estive internada na época de Natal vi um concerto de Natal no hall do hospital, e neste dia todos descemos para ver e todas as enfermeiras nos acompanharam.

É o lado da psicologia que os hospitais usam, cada um da sua forma , cada país do seu jeito, mas a mensagem que fica é que os últimos dias não precisam ser de escuridão. Podemos ter luz conosco independente do lugar que estivermos.

Para você que leu este post eu desejo muita Luz na tua vida.

8 de janeiro de 2018

Como é o atendimento hospitalar pré e pós cirúrgico num hospital Japonês - Parte l

Hospital no Japao
Visto da janela do quarto 

Essa era a vista que eu tinha quando acordava as 6:30 da manhã. Por que esse horário? Porque era o horário que as enfermeiras que ainda estavam dentro do turno da noite faziam o ultimo check in com os pacientes antes de entregar o turno. 

Elas davam bom dia bem devagarinho, não gritavam para acordar o hospital todo e mediam a temperatura e pressão , mas sobre elas teria que ter um capítulo a parte. As enfermeiras fazem toda a diferença no restabelecimento.

Os médicos ( no minímo 2 ) passavam todos os dias na parte da manhã e na parte da noite para ver cada paciente. Consegui ensinar um pouco de português e então eles me cumprimentavam pela manhã com Bom dia e a noite com Boa noite. Aqui o impressionante é o fato de que eles no próprio país se abriram a interagir com uma estrangeira e aprender algo do idioma dela. Parece bobagem mas me deixava feliz e me fazia sentir mais confiante e  que a dor era suportável. 

Antes da internação é conversado com uma pessoa responsável pelas informações a serem repassadas aos pacientes e os itens a serem trazidos que serão utilizados enquanto estiver sobre a responsabilidade do hospital. Ela te passa todos os avisos sobre o que deve trazer e isso inclui o próprio talher. 

As informações são de acordo com o tipo de tratamento a ser feito, no meu caso tive que fazer gargarejo com remédio 4x ao dia com remédio para que não corresse o risco de pegar uma gripe e com gripe fazer cirurgia fica impossível porque no primeiro espirro ou tosse estouraria o corte. Fui orientada também a encher bexigas várias vezes ao dia para trabalhar  o pulmão e as vias respiratórias porque a anestesia foi geral e ficaria muito tempo deitada sem muita locomoção.


Antes disso houve uma conversa com o médico para falar os procedimentos, riscos da cirurgia e o que eu deveria ou não fazer no pós cirurgia. Ainda assim, um dia antes da cirurgia mais uma conversa, quase a mesma mas esta confirmando mais uma vez e olhando sempre para as imagens do orgão a ser operado e explicando o que seria feito, os riscos e confirmando o lado a ser operado, em todas as conversas eles repetiam e confirmavam comigo o lado, se seria o direito ou esquerdo para que não houvesse dúvidas.

O hospital pede que o paciente e a família assine o termo de risco de cirurgia, o paciente fica ciente dos riscos que a cirurgia envolve depois do médico explicar tudo detalhadamente..

No momento em que você interna imediatamente vem a enfermeira chefe para conversar sobre tudo o que ocorrerá ou o que será feiro dali em diante. Perguntam se você  é alérgico a alguma alimento, apesar de que essa pergunta já haviam feito na primeira conversa 2 semanas antes do internamento. Perguntam se tenho preferência por algum tipo de alimento em troca por outro, nesse momento ia pedir para que todo domingo servissem churrasco no almoço mas desisti.

Depois veio outra enfermeira que participaria da cirurgia, conversa de novo faz perguntas para saber como estou, tira pressão, mede temperatura e explica novamente sobre a noite anterior a cirurgia e o pós cirurgia. E qualquer coisa dúvida é sanada imediatamente. 

E depois da última conversa que foi no dia anterior fizeram uma marca na minha mão para certificar que o lado que estaria aquela marca seria o lado a ser operado. Isso se dá ao medo de caso aja um engano como já houve tanto no Japão como em outros países em operar o orgão bom porque errou o lado se era o direito ou esquerdo.

O Japāo como já falei aqui várias vezes é o país do mantra cada um no seu quadrado, eu nāo te perturbo e você faz o mesmo; dentro do possível claro . Porque em se tratando de um hospital onde alguns sentem mais dores que os outros ou a gravidade da cirurgia as vezes o barulho se sente, eu ouvi pessoas gritando de dor outras  chorando copiosamente de dor.


Depois de alguns dias eu já andava em cadeira de rodas e teve um momento onde perdi o equilibrio antes de sentar e cai junto com a cadeira, mas por sorte cai no lado onde não foi operado. Imediatamente vieram enfermeiras me colocaram na cama e em seguida veio o médico e conversou comigo. Segui para o raio-x para saber se houve alguma ruptura da prótese e voltei para a cama. Estava tudo Ok, sem danos.

Vários médicos participam da cirurgia e sempre um deles, senão todos, estão todos os dias no hospital até tarde então nunca ouvi falar aquela famosa frase Ah quando o médico vier fazer a visita perguntamos para ele. Eles sempre estavam ali.

Dentro da  privacidade nipônica em uma  enfermaria com um quarto para  4 pessoas cada um tem o seu armário, geladeira e cofre particular. E o mais importante é a privacidade, mesmo sendo 4 pessoas no mesmo quarto há uma cortina que se faz de parede, você pode abrir ou fechar a hora que quiser mas na hora de dormir todas são fechadas e cada cama tem a sua luminária particular que as 21:00 os pacientes devem apagar porque é o toque de recolher.


Cortinas separam uma cama da outra e reservam a privacidade














No meu caso de dia eu deixava aberta para entrar sol no quarto todo e interagir com outros pacientes. Eu fiz muitas amizades, aprendi muito e era a mais nova daquela ala então ou eu ria com eles ou eles riam de mim, nos ajudávamos. Um na cadeira de roda outro de muleta mas nos ajudávamos. Apesar de que para tudo que se precisasse bastava chamar a enfermeira.



Armário particular

Cofre 

armario quarto enfermaria hospital no japao 
Geladeira


Para utilizar a geladeira e a TV você compra um cartão e olha a TV no horário que quiser e a geladeira usa o mesmo cartão da televisão. 

A porta do meu armário foi alvo das brincadeiras do centro de fisioterapia. A cada dia me davam algo que fizesse menção ao meu nome sobre algo em japonês. 

Para o banho há duas formas de fazer, um é quando a pessoa esta totalmente debilitada ou impossibilitada de se mover pela cirurgia. E que foi o meu caso na primeira semana então me levaram até esse maravilhoso local, confesso que foi o melhor banho da minha vida. Várias enfermeiras  e assistentes de enfermagem cuidando da tua higiene, te lavando, lavando o teu cabelo e perguntando onde mais queria lavar e sempre perguntando se estava tudo bem se tinha algo errado. Eu vou explicar como funciona isso tudo.





banho hospital jappones
Banho especial para quem esta impossibilitado de locomoção


Quando o paciente chega ele é removido para esta cama branca, o banheiro é aquecido normalmente por causa do calor da água que sai dos chuveiros, elas jogam água o tempo todo no teu corpo em nenhum momento se passa frio. Eu falo isso porque agora em dezembro estamos em pleno inverno no Japão.

Aquela banheira no fundo cor de rosa seria o ofurô , com esta cama branca se  acopla dentro e entra deitado mas essa sorte eu não tive. Deve ser maravilhoso entrar numa banheira de água quente deitado mesmo que não consiga se mover.

Depois do banho imediatamente começam a secar teu corpo e trocar a roupa e o paciente volta para o quarto e as enfermeiras ou as assistentes de enfermagem secam o teu cabelo. Em todo momento em procedimentos longe das vistas do médico e enfermeiras há sempre uma enfermeira que acompanha tudo. Eu estava no sexto andar e este banheiro fica no quarto andar .

O outro tipo de banho é aquele normal que temos em casa também com a diferença que tem sempre uma assistente para te ajudar, te lavar, te ajudar a trocar de roupa, secar etc. Caso o paciente consiga tomar banho relativamente sozinho depois de um certo tempo e precisar de ajuda para lavar os pés ou a se secar existem botões  que chamam as enfermeiras, aliás esses botões estão em toda parte dentro do banheiro e fora também nos corredores e também no banheiro onde fazemos as necessidades A e B rsss.

Seria esse da imagem abaixo e percebem o botão vermelho para chamar as enfermeiras espalhado nas paredes.

Aqui se toma banho sentado e tem a opção de usar a ducha embaixo ou mais acima como é de nosso costume ocidental , mesmo que fique sentado a ducha chega até você normalmente com a velocidade e temperatura maravilhosa.

banho tradicional hospital japones

Coluna da Monica

Coluna da Monica

Na imagem acima é o lugar onde colocamos nossa roupa, toalha e depois quando terminamos o banho nos sentamos e recebemos ajuda das enfermeiras ou assistentes e elas levam e trazem nossos pertences até o quarto. 

No próximo post falarei mais sobre como é o atendimento hospitalar em relação a médicos e o duro trabalho das enfermeiras cuidando de cada paciente como se fosse o único.





Os últimos dias de vida não precisam ser necessariamente de escuridão

Esta imagem ao lado refere-se a algo incomum mas com um significado de vida, de que os últimos dias de vida não precisam ser necessar...